Quem Criou o Concurso Público no Brasil? A Origem
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Quem Criou o Concurso Público no Brasil? A Origem

Anderson Silva agosto 28, 2026

Para milhões de brasileiros que passam madrugadas em claro debruçados sobre leis secas, resumos doutrinários e milhares de questões de provas anteriores, o certame seletivo é visto como o caminho definitivo para a ascensão social e a estabilidade profissional. No entanto, raros são os concurseiros que conhecem os bastidores históricos e sabem com precisão quem criou o concurso público no brasil e como a meritocracia estatal venceu séculos de nepotismo, clientelismo e apadrinhamento político para se consolidar como uma das instituições mais democráticas da República.

Ao contrário do que o senso comum imagina, o concurso público não nasceu da noite para o dia em um único decreto isolado. Ele é o resultado de uma longa e fascinante disputa entre duas visões de país: de um lado, a tradição colonial do “pistolão”, das cartas de recomendação dos coronéis e da compra de títulos públicos; do outro, a necessidade de construir um Estado moderno, técnico, impessoal e eficiente. Para quem deseja entender as raízes mais remotas dessas primeiras seleções isoladas, vale explorar o artigo especial sobre qual foi o primeiro concurso do Brasil.

RESUMO HISTÓRICO Quem Foi o Criador do Concurso Público?

Institucionalmente, quem criou o modelo moderno de concurso público centralizado e padronizado no Brasil foi o presidente Getúlio Vargas, com o apoio técnico de reformadores como Luiz Simões Lopes e Maurício Nabuco, por meio da criação do DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público) pelo Decreto-Lei nº 579, de 30 de julho de 1938. Constitucionalmente, a primeira exigência surgiu na Constituição de 1934, sendo universalizada e tornada obrigatória para todos os entes federativos apenas na Constituição Cidadã de 1988.

1. A Pré-História do Funcionalismo: O Império do “Pistolão” e os Ofícios Vendáveis

Para compreender o impacto revolucionário da criação do concurso público, é obrigatório olhar para o Brasil antes da década de 1930. Durante os períodos colonial, imperial e na República Velha (1889–1930), a estrutura do funcionalismo público brasileiro seguia o que o sociólogo Max Weber e o jurista Raymundo Faoro definiram como patrimonialismo estamental: o Estado era tratado pelas elites governantes como uma extensão natural de seus interesses particulares e familiares.

No Brasil Colônia e no Império de Dom Pedro I e Dom Pedro II, cargos de destaque nas alfândegas, cartórios, tesourarias e secretarias imperiais não eram disputados por meio de provas acadêmicas de conhecimento, mas sim por três vias consagradas pelo costume:

  • Ofícios Vendáveis e Hereditários: Diversos cargos fazendários, escrivanias e ofícios notariais eram literalmente leiloados pela Coroa Portuguesa para arrecadar receitas, passando de pai para filho como bens de herança privada.
  • Cartas Régias de Mercê e Apadrinhamento: O monarca concedia empregos públicos vitalícios como favor pessoal ou recompensa a nobres, proprietários de terras e aliados da Corte.
  • O Sistema do “Pistolão” na República Velha: Com a proclamação da República e a política do “café com leite”, os coronéis regionais controlavam as nomeações locais. O acesso a qualquer folha de pagamento estatal dependia de uma carta de recomendação de um deputado, senador ou chefe político local, prática popularmente batizada de “pistolão”.

Esse arranjo gerava um funcionalismo inchado, desqualificado tecnicamente e totalmente subserviente aos mandatos dos governantes de plantão. A cada troca de presidente ou governador, milhares de funcionários eram demitidos sumariamente para abrir espaço aos apadrinhados do novo grupo vencedor, criando uma rotatividade predatória conhecida como “sistema de despojos” (spoils system), importado de forma degenerada do modelo norte-americano do século XIX.

2. Os Primeiros Ensaios de Seleção: Da Faculdade de Medicina ao Itamaraty

Embora o apadrinhamento fosse a regra dominante, algumas ilhas de excelência técnica tentaram introduzir seleções de mérito ao longo do século XIX e início do século XX. O registro pioneiro mais documentado ocorreu em 28 de abril de 1855, quando o Decreto Imperial nº 1.387 estabeleceu um concurso de provas para a escolha de praticantes de farmácia e laboratório da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Nos anos seguintes do Segundo Reinado, o Marquês de Olinda regulamentou testes práticos para escriturários e oficiais da Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda em 1857. Já no início do século XX, em 1908, o Tesouro Nacional realizou uma seleção pública com provas escritas e de contabilidade para preencher vagas técnicas de contramestres e fiscais.

Retrato histórico do diplomata Maurício Nabuco em 1938, pioneiro na aplicação de concursos meritocráticos no Itamaraty e conselheiro da reforma do Estado
Maurício Nabuco: diplomata que implementou seleções meritocráticas no Itamaraty e serviu de inspiração direta para a criação do DASP. (Foto: Arquivo Nacional / Domínio Público)

No entanto, a grande virada de chave no conceito de meritocracia de alto escalão ocorreu no Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), sob a liderança do diplomata Maurício Nabuco (1891–1979), filho do célebre abolicionista e diplomata Joaquim Nabuco. Incomodado com a baixa qualificação e as indicações mundanas para o corpo consular brasileiro no exterior, Maurício Nabuco introduziu em 1918 e consolidou em 1931 exames de admissão rigorosos com provas dissertativas de idiomas estrangeiros (francês e inglês), história, geografia e direito internacional.

Nabuco defendia apaixonadamente que o Brasil só seria respeitado pelas grandes potências globais se possuísse um corpo permanente de diplomatas altamente preparados, selecionados pelo intelecto e não pelo sobrenome. Os métodos de rigor, sigilo e anonimato das provas implementados por Maurício Nabuco no Itamaraty serviram de laboratório institucional direto para a revolução que estava prestes a varrer toda a administração federal.

3. O Marco Constitucional Pioneiro: A Constituição de 1934

A Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder e encerrou a hegemonia da República Velha, tinha como uma de suas principais bandeiras a moralização da máquina administrativa e o combate à corrupção eleitoral e patrimonialista. Foi nesse caldeirão político que nasceu a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934.

A Carta Magna de 1934 foi a primeira Constituição da história brasileira a prever expressamente a exigência de concurso público para o ingresso na carreira pública. Em seu histórico Artigo 168, o texto constitucional estabeleceu:

TEXTO HISTÓRICO Constituição Federal de 1934, Artigo 168

“Os primeiros provimentos nos cargos das carreiras serão feitos mediante concurso de provas ou de títulos.”

Apesar de ser um avanço normativo gigantesco, o dispositivo enfrentou imensa resistência prática das oligarquias regionais e dos ministérios tradicionais. Como a Constituição não especificava qual órgão seria responsável por aplicar as provas nem fixava sanções claras para quem descumprisse a regra, muitos ministérios continuaram nomeando apadrinhados sob a alegação de “cargos comissionados” ou “funções transitórias de confiança”. Ficou evidente que, para a regra funcionar, o Brasil precisava de um órgão centralizador independente dotado de superpoderes.

4. O Grande Arquiteto: Getúlio Vargas, o DASP e Luiz Simões Lopes (1938)

Se a Constituição de 1934 colocou o princípio no papel, a resposta para quem criou o concurso público no brasil em sua estrutura executiva, prática e permanente atende pelo nome de Getúlio Vargas e sua equipe de reformadores burocráticos.

Presidente Getúlio Vargas discursando e assinando atos da reforma administrativa do Estado brasileiro
Getúlio Vargas foi o responsável político por criar o DASP em 1938 e transformar o concurso público em instrumento central da modernização burocrática nacional. (Foto: Agência Senado / CC BY 2.0)

Em 1937, com a instauração do Estado Novo, Vargas decretou que o Brasil precisava passar por uma industrialização acelerada e por uma centralização política. Para construir hidrelétricas, estradas de ferro, siderúrgicas estatais e controlar a economia nacional, o governo não podia mais depender de burocratas nomeados por favores de coronéis do interior. Era preciso criar uma tecnocracia altamente competente e disciplinada, inspirada no modelo da burocracia racional-legal de Max Weber e no Civil Service britânico e norte-americano.

Em 30 de julho de 1938, Getúlio Vargas assinou o Decreto-Lei nº 579, criando o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), órgão diretamente subordinado ao Presidente da República no Palácio do Catete. Para liderar essa autêntica revolução administrativa, Vargas nomeou o engenheiro e administrador Luiz Simões Lopes.

Fachada histórica do Palácio do Catete no Rio de Janeiro, antiga sede da Presidência da República durante a criação do DASP
O Palácio do Catete, no Rio de Janeiro: antiga sede do Poder Executivo Federal onde foram assinados os decretos que estruturaram o funcionalismo moderno. (Foto: Diego Rego Monteiro / CC BY-SA 4.0)

O DASP recebeu poderes quase imperiais para remodelar todo o funcionalismo federal brasileiro. Entre as principais atribuições revolucionárias do órgão, destacavam-se:

  • Monopólio da Seleção Pública: Nenhum ministério ou órgão civil da União podia contratar novos servidores sem que o DASP elaborasse, fiscalizasse e aplicasse os concursos públicos unificados.
  • Padronização de Carreiras e Cargos: Criação do primeiro plano de cargos, carreiras e remunerações federais com base em atribuições técnicas claras e faixas salariais estruturadas.
  • Critérios Psicotécnicos e Médicos: Introdução de exames de aptidão psicológica, biotipologia, raciocínio lógico e resistência física para os cargos que exigiam esforço operacional.
  • Treinamento e Aperfeiçoamento Continuado: Criação de cursos de formação obrigatórios prévios à posse para capacitar os novos funcionários nas rotinas de administração orçamentária e protocolo.

Para os estudiosos das reformas administrativas do período Vargas, a criação do DASP representou a certidão de nascimento da administração pública profissional no Brasil, rompendo em definitivo com o amadorismo e criando uma identidade de orgulho e prestígio social em torno da figura do “funcionário público concursado”.

5. O Concurso Histórico do IAPI (1937): O Primeiro Grande Exame de Massa

Um ano antes da formalização do DASP, em 1937, ocorreu aquele que é considerado pelos historiadores como o primeiro concurso público moderno em escala de massa do Brasil: a seleção para o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI).

Criado para gerenciar a previdência social e os fundos de aposentadoria de mais de 1 milhão de trabalhadores da indústria em crescimento, o IAPI precisava de centenas de escriturários, contadores, atuários e fiscais em todo o território nacional. Em vez de aceitar as listas de afilhados enviadas por sindicatos e deputados, a diretoria do IAPI contratou especialistas para elaborar um certame rigorosamente meritocrático.

RAIO-X DO CERTAME Como Foi o Concurso do IAPI em 1937?

Inscritos: Mais de 12.000 candidatos disputaram vagas em várias capitais brasileiras, um número estrondoso para a época.

Disciplinas Cobradas: Língua Portuguesa (redação e gramática culta), Aritmética e Álgebra, Noções de Contabilidade, Legislação Previdenciária e Datilografia prática.

Inovação: Foi o primeiro certame nacional a utilizar cartões perfurados mecânicos para tabulação de notas e testes psicotécnicos de atenção concentrada desenvolvidos pelo Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP).

6. Curiosidades e Bastidores dos Primeiros Concursos no Brasil

A rotina dos concursos públicos nas décadas de 1930, 1940 e 1950 era radicalmente diferente dos exames com gabarito óptico e caneta esferográfica transparente que conhecemos hoje. As provas de antigamente eram marcadas por rituais solenes e exigências surpreendentes:

  • Terno, Gravata e Vestimenta Solene Obrigatórios: Candidatos que chegassem aos locais de prova sem paletó, gravata alinhada e sapatos engraxados eram sumariamente impedidos de entrar pelos fiscais do DASP, considerados indignos de prestar exames para a nobre função pública.
  • Caligrafia Impecável e Caneta-Tinteiro: Não existiam folhas de respostas eletrônicas. As provas eram totalmente dissertativas e manuscritas. Candidatos que apresentassem letra ilegível, borrões de tinta de tinteiro ou má diagramação sofriam penalidades severas na pontuação final.
  • Latim e Francês como Filtros Culturais: Para carreiras jurídicas, fiscais e diplomáticas, a fluência na leitura de clássicos do Direito Romano em latim e a tradução direta de tratados diplomáticos em francês eram etapas eliminatórias indispensáveis.
  • Bancas Orais com Sabatinas Públicas: Em muitos concursos para cargos de auditoria, magistratura e consultoria jurídica, os candidatos eram chamados a uma mesa solene aberta ao público, onde eram sabatinados por juristas notáveis por até duas horas consecutivas.
  • Exames Psicotécnicos com Labirintos e Velocímetros: Os testes de atenção e equilíbrio emocional utilizavam aparelhos mecânicos da época, como o “aparelho de Lahy” e testes de destreza manual com cronômetro mecânico.

7. A Era do “Trem da Alegria” e as Brechas do Período Militar (1945–1988)

Apesar do imenso sucesso do DASP, a história do concurso público no Brasil não foi uma linha reta de vitórias. Entre a queda de Getúlio Vargas em 1945 e o fim do Regime Militar na década de 1980, o funcionalismo brasileiro sofreu constantes retrocessos e contaminações políticas.

Com a expansão das empresas estatais (Petrobras, Eletrobras, Telebras) e a criação do Decreto-Lei nº 200/1967 na Ditadura Militar, permitiu-se a contratação de pessoal sob o regime da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) para a administração indireta. Governadores, prefeitos e ministros passaram a usar essa brecha jurídica para contratar centenas de milhares de funcionários temporários ou comissionados sem concurso público.

Periodicamente, governos aprovavam leis de “estabilização” ou emendas parlamentares que transformavam esses funcionários temporários e terceirizados em servidores públicos estatutários vitalícios, prática vergonhosa que a imprensa e os juristas da época apelidaram de “Trem da Alegria”. A meritocracia era atropelada pelo compadrio, gerando revolta nos cidadãos que estudavam de forma honesta.

8. A Consagração Definitiva: A Constituição Cidadã de 1988 e o Artigo 37

Para sepultar de uma vez por todas o “trem da alegria”, o nepotismo escancarado e as nomeações de compadres, a Assembleia Nacional Constituinte de 1987–1988 travou uma das batalhas mais emblemáticas da história legislativa brasileira.

Ulysses Guimarães erguendo o texto da Constituição Federal de 1988 no Congresso Nacional, marco que tornou o concurso público universal e obrigatório
A promulgação da Constituição Cidadã de 1988 por Ulysses Guimarães consolidou o Artigo 37, tornando o concurso público obrigatório e universal para todos os entes federativos. (Foto: Senado Federal / CC BY 2.0)

Sob a liderança do deputado Ulysses Guimarães e do relator Bernardo Cabral, a Constituição Federal de 1988 estabeleceu o concurso público como cláusula pétrea da moralidade administrativa, universalizando sua exigência no célebre Artigo 37, inciso II:

DISPOSITIVO FUNDAMENTAL Artigo 37, Inciso II da Constituição de 1988

“A investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração.”

Parágrafo 2º: “A não-observância do disposto nos incisos II e III implicará a nulidade do ato e a punição da autoridade responsável, nos termos da lei.”

O rigor da Constituição Cidadã não deixou espaço para subterfúgios: a exigência passou a valer para a administração direta e indireta (fundações, autarquias, empresas públicas e sociedades de economia mista) de todos os entes da Federação — União, 26 Estados, Distrito Federal e mais de 5.500 Municípios. Qualquer contratação sem concurso passou a ser considerada nula de pleno direito, gerando improbidade administrativa e responsabilização penal para os prefeitos e governadores infratores.

Dois anos depois, com a promulgação da Lei Federal nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, instituiu-se o Regime Jurídico Único (RJU) dos servidores civis da União, garantindo a estabilidade após o estágio probatório, a irredutibilidade de vencimentos e as garantias necessárias para que o servidor possa fiscalizar, auditar e cumprir a lei sem medo de perseguições políticas.

9. O Concurso no Século XXI: Da Folha de Respostas ao Concurso Nacional Unificado

Nas décadas recentes, o concurso público no Brasil atingiu um nível de sofisticação logística, tecnológica e jurídica sem precedentes no mundo ocidental. Grandes bancas examinadoras especializadas — como Cebraspe, Fundação Getulio Vargas (FGV), Fundação Carlos Chagas (FCC) e Vunesp — desenvolveram sistemas ultrasseguros de segurança biométrica, reconhecimento facial, detecção de metais e criptografia de provas para garantir a total isonomia dos certames.

Candidatos concentrados respondendo a caderno de questões em sala de aplicação de exame de concurso público
Hoje, os concursos públicos mobilizam milhões de brasileiros em busca de estabilidade e remuneração justa através do mérito individual. (Foto: Michael Surran / CC BY-SA 2.0)

Com a promulgação da nova lei dos concursos públicos e o avanço da digitalização governamental, o Brasil deu um passo histórico com a criação do Concurso Nacional Unificado (CNU), apelidado pela mídia de o “Enem dos Concursos”. Com aplicação simultânea de provas em mais de 220 cidades brasileiras, o modelo descentralizou as oportunidades, permitindo que cidadãos de cidades ribeirinhas e do interior profundo disputem vagas de órgãos federais de elite sem precisar gastar fortunas em passagens e hospedagem em Brasília.

Para quem está se preparando para as próximas rodadas do certame unificado federal, vale conferir os detalhes e blocos temáticos no artigo completo sobre o CNU 2026, além de tirar as principais dúvidas sobre concursos públicos que mais confundem os iniciantes.

10. Linha do Tempo: A Evolução Histórica do Concurso no Brasil

Para sintetizar com clareza visual a trajetória de séculos que transformou as cartas de recomendação na meritocracia contemporânea, acompanhe a linha do tempo comparativa das grandes eras do funcionalismo brasileiro:

Período Histórico Forma Predominante de Ingresso Marco Institucional / Jurídico Status da Meritocracia
Brasil Colônia e Império (1500–1889) Compra de ofícios, cartas régias de mercê e apadrinhamento nobre Decreto Imperial nº 1.387/1855 (primeiro teste pontual na Medicina) Inexistente (Patrimonialismo)
República Velha (1889–1930) Indicação política de coronéis e deputados (“Pistolão”) Exames de admissão do Itamaraty (Maurício Nabuco, 1918) Restrita a raras ilhas técnicas
Era Vargas e DASP (1930–1945) Concurso público centralizado e padronizado Constituição de 1934 (Art. 168) e Decreto-Lei nº 579/1938 (DASP) Institucionalização Federal
República Populista e Ditadura (1945–1988) Concurso nos órgãos centrais e contratações CLT nas estatais Decreto-Lei nº 200/1967 e leis de efetivação (“Trem da Alegria”) Oscilante e com brechas
Constituição de 1988 aos Dias Atuais Concurso universal obrigatório para União, Estados e Municípios Art. 37, II da CF/88, Lei 8.112/1990 e Concurso Nacional Unificado Universal e Inviolável

11. O Legado da Meritocracia Republicana no Brasil

Responder a pergunta sobre quem criou o concurso público no Brasil vai muito além de citar datas e decretos presidenciais. Trata-se de reconhecer a vitória da cidadania e da igualdade de oportunidades sobre o privilégio de berço.

Quando Getúlio Vargas assinou o decreto de criação do DASP em 1938 e quando a Constituinte de 1988 blindou o Artigo 37, o Estado brasileiro firmou um pacto solene com o seu povo: qualquer brasileiro, independentemente de sua classe social, de sua cor, de sua religião ou de suas conexões políticas, pode alcançar os cargos mais altos da República estudando e superando seus concorrentes pelo mérito de sua mente.

Hoje, cada vez que um concurseiro abre seu caderno de questões e marca seu cartão de respostas, ele não está apenas disputando uma vaga de trabalho; ele está exercendo um direito conquistado a duras penas por gerações de reformadores que lutaram para que a competência técnica, e não o favor político, fosse o único passaporte para servir ao Brasil.

12. Fontes Históricas e Referências Oficiais