Se você já sonhou em cruzar os imponentes arcos do Palácio Itamaraty como diplomata de carreira, certamente já ouviu histórias quase míticas sobre as temidas questões discursivas do CACD. Enquanto a primeira fase (o Teste Pré-Seletivo – TPS) funciona como uma impiedosa peneira de alternativas certas e erradas, é nas etapas escritas que o jogo é verdadeiramente decidido. Não basta assinalar uma bolinha no gabarito: você precisa sentar diante de folhas em branco e redigir ensaios densos, fundamentados e com rigor acadêmico impecável enquanto o relógio corre contra você.
Dominar as questões discursivas do CACD exige uma metamorfose intelectual. O candidato deixa de ser um mero acumulador de dados e datas para se tornar um articulador de ideias, capaz de cruzar a política externa do Barão do Rio Branco com os dilemas do multilateralismo no século XXI em menos de 60 linhas manuscritas. Se você quer entender exatamente o nível de complexidade dessa maratona, o que a banca examinadora realmente avalia e quais foram os temas mais cobrados nas edições recentes, acompanhe este raio-x completo e descontraído.

A Real Dificuldade das Questões Discursivas do CACD: O Choque de Realidade
Por que tantos concurseiros brilhantes, com anos de estudo e pós-graduações no currículo, simplesmente travam na hora de responder às questões discursivas do CACD? A resposta está na combinação explosiva de três fatores: tempo escasso, amplitude temática e a severidade do modelo de correção da banca Cebraspe em conjunto com o Instituto Rio Branco (IRBr).
Ao contrário de provas discursivas convencionais, onde basta demonstrar conhecimento elementar da lei ou de doutrina sumulada, no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata a banca avalia a sua capacidade de pensar diplomaticamente. Isso significa que o texto precisa ter clareza analítica, elegância vernacular, encadeamento lógico e total ausência de “encher linguiça” (ou o famoso lenga-lenga acadêmico).
Os Três Grandes Vilões da Prova Escrita
- A Tirania do Relógio: Em uma prova típica de 4 horas, você frequentemente precisa elaborar uma dissertação longa (de 60 a 90 linhas) e responder a três ou quatro questões analíticas (de 30 a 45 linhas cada). Dividindo o tempo, você tem em média 40 a 50 minutos para planejar, estruturar, redigir e passar a limpo cada resposta;
- A Fórmula Cebraspe de Penalização: Cada deslize gramatical, erro de pontuação, desvio de regência ou rasura ilegível diminui diretamente a sua nota de conteúdo através de um multiplicador rigoroso. Um texto com excelente argumento conceitual pode ser rebaixado para a nota de corte se a morfossintaxe for negligenciada;
- O Espelho de Conteúdo Fechado: A banca elabora uma grade de tópicos esperados (o “padrão de resposta”). Se o enunciado perguntar sobre três desdobramentos de um tratado histórico e você discorrer brilhantemente sobre apenas dois, você perderá metade dos pontos daquele quesito, independentemente da sua erudição.
Essa combinação de fatores faz com que o CACD ocupe lugar cativo no topo do ranking quando analisamos os concursos mais difíceis do Brasil, exigindo uma preparação profissional e estratégica desde o primeiro dia.

Estrutura das Fases Escritas: Como as Disciplinas São Divididas
O processo seletivo do Instituto Rio Branco divide suas etapas discursivas em duas fases consecutivas: a Segunda Fase (focada exclusivamente no domínio linguístico de Português e Inglês) e a Terceira Fase (dedicada às disciplinas temáticas e aos demais idiomas estrangeiros). Compreender essa separação é essencial para montar um planejamento de estudos eficiente.
Abaixo, detalhamos o formato exato das questões discursivas do CACD em cada uma dessas fases:
| Fase | Disciplina | Estrutura da Prova | Tempo Total | Caráter |
|---|---|---|---|---|
| 2ª Fase | Língua Portuguesa | 1 Redação dissertativa (65 a 70 linhas) + 2 questões práticas (30 a 35 linhas cada) | 5 horas | Eliminatório e Classificatório |
| 2ª Fase | Língua Inglesa | 1 Redação analítica (45 a 50 linhas) + 1 tradução (EN > PT) + 1 versão (PT > EN) + 1 resumo (summary) | 5 horas | Eliminatório e Classificatório |
| 3ª Fase | História do Brasil | 1 Dissertação aprofundada (60 linhas) + 3 questões discursivas (30 linhas cada) | 4 horas | Classificatório |
| 3ª Fase | Política Internacional | 1 Dissertação aprofundada (60 linhas) + 3 questões discursivas (30 linhas cada) | 4 horas | Classificatório |
| 3ª Fase | Geografia | 2 Questões discursivas analíticas (30 a 40 linhas cada) | 2 horas | Classificatório |
| 3ª Fase | Economia | 2 Questões discursivas técnicas (30 a 40 linhas cada) | 2 horas | Classificatório |
| 3ª Fase | Direito | 2 Questões discursivas (Direito Constitucional e Direito Internacional Público) | 2 horas | Classificatório |
| 3ª Fase | Espanhol e Francês | 1 Resumo analítico + 1 versão do idioma para o Português em cada língua | 4 horas | Classificatório |
Para quem está construindo a base de preparação do zero, entender a dinâmica das etapas do concurso faz toda a diferença. Vale a pena conferir nossa análise sobre as fases e preparação para o CACD para visualizar como o TPS se conecta com as etapas escritas.

Raio-X por Matéria: O Que é Cobrado em Cada Prova Discursiva
Cada disciplina nas questões discursivas do CACD possui uma personalidade própria. A banca examinadora adota abordagens metodológicas específicas para cada área do saber, esperando respostas com tonalidades conceituais distintas. Vamos analisar os pontos nevrálgicos de cada disciplina:
1. Língua Portuguesa e Língua Inglesa (A Barreira da Segunda Fase)
A prova de Português é o verdadeiro “divisor de águas” do concurso. A redação exige que o candidato desenvolva um ensaio autoral sobre temas filosóficos, sociológicos, estéticos ou literários ligados à formação da identidade brasileira. A banca não quer clichês escolares; ela busca densidade argumentativa, repertório de autores consagrados (como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Machado de Assis ou Celso Furtado) e perfeito domínio do registro formal.
Já a prova de Inglês cobra nível C1/C2 de proficiência. A redação testa a habilidade de argumentar sobre temas globais em prosa sofisticada, enquanto as etapas de tradução e versão exigem precisão terminológica milimétrica, traduzindo textos clássicos ou editoriais sem perder nuances estilísticas.
2. História do Brasil (O Coração da Diplomacia)
Na Terceira Fase, a prova de História do Brasil é frequentemente a mais temida pelos ceacedistas. A banca cobra os processos estruturantes da história nacional desde o período colonial, com ênfase máxima nos séculos XIX e XX:
- A transmigração da família real em 1808 e a montagem do Estado joanino;
- A consolidação do Império brasileiro, a Guerra da Tríplice Aliança e a política platina;
- A diplomacia da Primeira República sob a liderança do Barão do Rio Branco e a fixação pacífica das fronteiras nacionais;
- A Era Vargas, a modernização do Estado, a participação na Segunda Guerra Mundial e a Missão Abbink;
- A Política Externa Independente (PEI) dos governos Jânio Quadros e João Goulart, além do Pragmatismo Responsável durante o regime militar.
Para entender a evolução da máquina pública ao longo desses períodos, é enriquecedor estudar como a meritocracia evoluiu desde o primeiro concurso público do Brasil até a consolidação do serviço público contemporâneo.

3. Política Internacional (O Cenário Contemporâneo)
A prova de Política Internacional avalia a capacidade do futuro diplomata de interpretar o tabuleiro geopolítico contemporâneo à luz dos interesses nacionais permanentes do Brasil. Os temas recorrentes incluem:
- O multilateralismo e o sistema das Nações Unidas (ONU), incluindo debates sobre a reforma do Conselho de Segurança;
- A atuação do Brasil no bloco dos BRICS+ e a articulação do Sul Global;
- A governança ambiental global, acordos climáticos (Acordo de Paris e conferências da COP) e transição energética;
- A integração regional na América do Sul (Mercosul, Unasul, OTCA) e a segurança hemisférica;
- Grandes conflitos contemporâneos, segurança cibernética e a rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China.
4. Economia e Geografia: O Rigor Técnico
Em Economia, a prova não aceita divagações: é preciso apresentar fórmulas matemáticas, gráficos analíticos explicados em texto corrido e raciocínio micro e macroeconômico sólido. Tópicos como balanço de pagamentos, curvas IS-LM-BP, modelos de crescimento de Solow, regimes de metas de inflação e teoria do comércio internacional aparecem com frequência.
Em Geografia, o foco recai sobre a geopolítica do território brasileiro: formação das redes urbanas, dinâmica demográfica, transição energética, logística de transportes (como os corredores bioceânicos) e a soberania estratégica sobre a Amazônia Azul e a bacia amazônica.
5. Direito: A Tutela das Normas Internacionais e Constitucionais
A disciplina de Direito nas questões discursivas do CACD é dividida entre Direito Constitucional e Direito Internacional Público (DIP). Os eixos essenciais cobrados pela banca são:
- A teoria dos tratados internacionais e a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados de 1969;
- A incorporação dos tratados ao direito interno brasileiro e a jurisprudência do STF sobre o art. 5º, § 3º da Constituição Federal de 1988;
- As imunidades diplomáticas, consulares e de jurisdição dos Estados soberanos (distinção entre atos de império e atos de gestão);
- A jurisdição da Corte Internacional de Justiça (CIJ) e do Tribunal Penal Internacional (TPI).

Últimos Assuntos Cobrados nas Provas Recentes (2020 a 2024)
Analisar o histórico recente das questões discursivas do CACD é o caminho mais inteligente para mapear a bússola temática da banca examinadora. Abaixo, destacamos uma síntese dos principais temas e enunciados cobrados nas últimas edições do concurso:
Edição 2023 / 2024
- Política Internacional: O papel do Brasil na governança climática global e o protagonismo do país nas negociações das COPs; os desafios da ordem internacional multipolar diante do conflito no Leste Europeu;
- História do Brasil: A política externa do governo Juscelino Kubitschek e a formulação da Operação Pan-Americana (OPA); o impacto da Revolta da Vacina e as reformas urbanas no início do século XX;
- Economia: Desafios da política monetária em economias emergentes frente ao aperto das taxas de juros nas economias avançadas; a reindustrialização sustentável e incentivos à inovação;
- Geografia: Integração física e logística sul-americana, com foco nos projetos da Rota Bioceânica e na gestão compartilhada das águas da Bacia do Prata;
- Direito: A proteção internacional dos Direitos Humanos e a jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos frente à soberania estatal.
Edição 2021 / 2022
- Política Internacional: Cooperação Sul-Sul no âmbito da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e do IBAS (Índia, Brasil e África do Sul); o impacto das cadeias globais de suprimentos na diplomacia comercial;
- História do Brasil: A Convenção de Itu e a transição do Partido Republicano Paulista para a proclamação da República; a missão diplomática de San Tiago Dantas no início dos anos 1960;
- Direito: A responsabilidade internacional do Estado por atos ilícitos e a aplicação das normas de jus cogens;
- Geografia: A fronteira agrícola moderna no Matopiba e seus reflexos socioeconômicos e ambientais na ocupação do território.
Para catalogar esses temas e fichar cada artigo científico de referência, muitos candidatos de alto rendimento utilizam métodos digitais inteligentes. Veja como estruturar cadernos de matérias usando o Notion para estudar e como acelerar sínteses densas com o NotebookLM para resumos.

Como a Banca Cebraspe Corrige as Questões: Os Critérios de Avaliação
Entender a mecânica do espelho de correção é o segredo para transformar uma nota mediana em uma nota de aprovação. A banca do Cebraspe avalia cada texto sob duas dimensões complementares: Aspectos Macroestruturais (Conteúdo e Estrutura) e Aspectos Microestruturais (Linguagem e Gramática).
A Fórmula Matemática de Desconto de Erros
Nas questões discursivas do concurso, a pontuação final (NF) de cada questão é calculada a partir de uma equação matemática rigorosa:
NF = NC – (2 × NE / TL)
Onde as variáveis representam:
- NC (Nota de Conteúdo): Pontuação bruta obtida nos quesitos temáticos do espelho de correção (normalmente de 0 a 10 ou de 0 a 30 pontos);
- NE (Número de Erros): Soma total de deslizes gramaticais, ortográficos, de concordância, regência, crase e pontuação identificados pelo corretor;
- TL (Total de Linhas Efetivamente Escritas): Número de linhas preenchidas pelo candidato na folha definitiva.
Perceba o efeito perverso dessa fórmula: quanto menos linhas você escreve, maior é o peso relativo de cada erro gramatical cometido. Por isso, preencher a folha de resposta com substância e respeitar as margens é parte vital da estratégia de prova.
O Checklist do Espelho de Correção
O corretor recebe uma grade com tópicos pré-determinados pela banca avaliadora. Cada quesito do enunciado possui pontuação fracionada. Por exemplo, em uma questão de 30 pontos sobre a Política Externa Independente:
- Identificação dos pilares conceituais da PEI (desideologização, universalismo e autodeterminação dos povos): 10 pontos;
- Análise da atuação diplomática de Afonso Arinos e San Tiago Dantas: 10 pontos;
- Relações do Brasil com o bloco dos não-alinhados e os países africanos recém-independentes: 10 pontos.
Se você esquecer de mencionar explicitamente um desses tópicos, o corretor não tem liberdade para lhe atribuir a pontuação correspondente, mesmo que seu texto seja brilhante nos outros aspectos.

Método em 4 Etapas para Responder Qualquer Questão Discursiva
Para não ser pego de surpresa no dia da prova, desenvolva uma metodologia padronizada de resposta. Este passo a passo foi testado e aprovado por sucessivas gerações de diplomatas:
- Etapa 1: Decodificação Cirúrgica do Comando (3 a 5 minutos)
Leia o enunciado sublinhando os verbos de comando: “analise”, “compare”, “contextualize”, “demonstre” ou “critique”. Cada verbo exige uma postura argumentativa diferente. Separe a questão em subitens numerados para garantir que nenhum quesito fique sem resposta; - Etapa 2: O Esqueleto Estrutural / Brainstorming (5 a 7 minutos)
No rascunho, não perca tempo redigindo frases inteiras. Crie um mapa de tópicos com palavras-chave, autores de referência, tratados, tratados, datas e conceitos que precisam constar em cada parágrafo; - Etapa 3: Redação Fluida e Direta (30 a 35 minutos)
Vá direto ao ponto no primeiro período de cada parágrafo (o chamado tópico frasal). Responda explicitamente ao que foi perguntado antes de aprofundar a fundamentação teórica. Evite rodeios e clichês vazios; - Etapa 4: Varredura Gramatical e Ajuste Fino (3 a 5 minutos)
Releia a resposta com foco exclusivo em caçar possíveis erros de crase, concordância verbal, acentuação gráfica e fechamento de aspas. Essa rápida revisão pode salvar décimos preciosos na pontuação final.
Reta Final: Como Transformar Prática em Nomeação
Superar as questões discursivas do CACD não é um dom inato, mas uma habilidade técnica que se desenvolve com repetição, disciplina e autocrítica severa. Não espere a divulgação do resultado do TPS para começar a produzir redações manuscritas sob a pressão do cronômetro. Escreva semanalmente, submeta seus textos a corretores experientes e estude minuciosamente as melhores respostas publicadas pelo Instituto Rio Branco nos manuais de candidatos das edições anteriores.
A jornada até a posse como Terceiro-Secretário do Ministério das Relações Exteriores é longa e exige resiliência, mas cada parágrafo bem estruturado e cada conceito dominado colocam você um passo mais perto de representar o Brasil perante a comunidade internacional.
Fontes Oficiais e Referências Bibliográficas
- Instituto Rio Branco (IRBr) / Ministério das Relações Exteriores: Editais Oficiais, Guias de Estudos e Provas Anteriores do CACD.
- Cebraspe (Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos): Padrões de Resposta e Critérios de Correção Discursiva.
- Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG): Biblioteca Digital de Relações Internacionais e História Diplomática do Brasil.
- Presidência da República / Casa Civil: Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
- Nações Unidas Brasil: Documentos e Resoluções sobre Governança Multilateral e Direitos Humanos.
- CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo: História da Política Exterior do Brasil. Brasília: Editora UnB.
- MELLO, Celso D. de Albuquerque: Curso de Direito Internacional Público. Rio de Janeiro: Renovar.